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Filantropia de Impacto: como fazer que as doações deixem um avanço duradouro

21 de set.
4 min de leitura

A filantropia tornou-se uma área em franco desenvolvimento. Apesar de existir há décadas no mundo contemporâneo, o aumento das grandes fortunas e do interesse em doar de forma estruturada têm movimentado o setor, seja na sua profissionalização, seja no interesse cada vez maior de famílias ou pessoas deixarem um legado mais duradouro.

São várias as razões que fazem com que as pessoas queiram doar e ajudar outras. Por um lado, a vontade de ajudar as pessoas, traduzida pela palavra caridade – amor ao próximo. Já a filantropia, pressupõe um amor mais coletivo - amor pela humanidade.

Por isso, divido a forma de fazer impacto social no mundo em dois grandes caminhos.

O primeiro é com ação social direta. Esse tipo de atuação social é feito de forma mais direta, em geral como beneficiários ou atendimento (idosos, crianças, jovens). É a forma mais tradicional, com exemplos de inúmeras ONGs que atuam nas mais diversas áreas ou ainda as ações de ajuda humanitária. Algumas características que podem permear esse tipo de ação: ajuda pessoas que não podem esperar até amanhã; age de forma emergencial; alcança pessoas que estão excluídas e fora do alcance do Estado ou que não teriam oportunidade de acesso a determinado atendimento ou projeto.

O desafio é a escala do impacto. Por mais recursos que se tenha, a escala desse tipo de atuação é limitada, pois o atendimento direto é custoso. Por isso, muitas organizações dessa tipologia aceitam recursos públicos, pois, de certo modo, ajudam o Estado a executar políticas diretamente com os beneficiários, muitas vezes, aonde o Estado não chega.

As doações que são feitas para essa forma de atuação são importantes e são atos que representam o nosso amor ao próximo. Essa é a grande vantagem desse tipo de atuação já que os doadores podem ver e medir a mudança na vida das pessoas atendidas.

A segunda forma de gerar impacto é por meio do financiamento às ações de advocacy. O objetivo aqui é trazer uma mudança mais sistêmica ou política, em diversas causas e, em geral, influenciando as políticas públicas. Esse tipo de impacto é mais difícil de se ver diretamente refletido na vida de uma pessoa e as mudanças são mais a longo prazo. Contudo, a escala é maior e os resultados de uma mudança são duradouros. Essa escala pode ser enorme e com efeito em cascata, se a atuação for nas causas-raízes dos problemas públicos, ou seja, dos sintomas que muitas ONGs de atendimento trabalham para mitigar.

O desafio é que se trata de um investimento de longo prazo e com métricas diferentes dos projetos sociais diretos. Um exemplo desse tipo de filantropia é o investimento da Fundação Ford para apoiar o fim do apartheid na África do Sul.

Mas por qual razão a filantropia ainda não investe como deveria nas organizações ou ações de Advocacy. Poderia citar algumas, mas a principal, na minha opinião, é o medo da política ou de lidar com ela.

Aqui vale aprofundar um pouco. Há uma distinção em inglês muito interessante entre a palavra policy de politics. Traduzindo para o português, temos aqui a diferença como “política pública” e “política” somente. Em geral, quando uma organização quer escalar seu impacto, ela precisa influenciar a policy ou seja, a “política pública”. Aqui falamos de leis, planos de governo, implementação de programas público, regulamentações, campanhas. Tudo aquilo que seja a concretização de uma ação do Estado em prol da melhoria de indicadores sociais, econômicos ambientais.

Contudo, porém, todavia...para conseguir mudanças nas políticas públicas e mudar o ponteiro nas mais diversas temáticas como saúde, educação, segurança pública; deve-se necessariamente atuar na “política” ou politics.

Não há saída.

Será preciso mapear os tomadores de decisão, fazer reuniões, articular, ou seja, o lobby será necessário. A forma de navegar pode ser calibrada e pode-se ter uma estratégia diferente para cada perfil. Uma organização pode ter um perfil mais de denúncia ou fiscalização; outra pode ser mais articuladora ou colaborativa com governos, mas, de todo modo, para alcançar o impacto nas políticas públicas, a filantropia deve financiar organizações que trabalham com política.

E é aqui que se encontra a grande trava.

O amor à humanidade para ser mais amplo e coletivo como pressupõe seu significado, necessita de ousadia e visão macro, seja num bairro, cidade ou país. Trata-se de um trabalho coletivo nas regras do jogo sociais, na aplicação do dinheiro que todos pagamos para ter uma sociedade mais justa e desenvolvida.

Hoje, o grande desafio é promover o debate no ambiente filantrópico. E conscientizar sobre essa urgência, pois a erosão da política nos mais diversos países pode levar a impactos irreversíveis para a humanidade como as mudanças climáticas; ou pode gerar um número abissal de mortes como as recessões econômicas ou guerras; ou ainda menos oportunidades de estudo, atendimento médico, segurança.

Ou seja, falar de impacto é também falar do impacto negativo que se tem por não investirmos recursos da sociedade civil em ações de advocacy e mudanças de políticas públicas. E isso é algo urgente na pauta filantrópica.

 

 
 
 

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